CLÁUDIO FERREIRA
Lembro-me (creio eu)
[1]
No conto de Jorge Luís Borges Borges, Funes é um jovem que, após uma queda de cavalo, adquire uma memória prodigiosa tornando-se incapaz de esquecer qualquer detalhe da sua vida, por mais insignificante que seja.
Quando fui convidado a participar no projeto Livro de Cabeceira surgiu de imediato, na minha memória, a característica peculiar do personagem Funes e, como este, se relacionaria com a ideia de uma fotografia Polaroid.
As Polaroids são pequenos fragmentos quadrados de um instante captado, onde se tenta aprisionar/isolar uma imagem experienciada/vivida, uma espécie de lembrete, por vezes, desfocada e difusa que, ao contrário de Funes, não abrange a totalidade do mundo nem do tempo, mas tem o poder de evocar emoções e sentimentos, memória seletiva, uma sensação de efemeridade e de esquecimento.
Neste conjunto de Polaroids algumas são rasgos de luz, imagens retorcidas ou esquecidas, outras, apresentam-se mais nítidas e precisas. Esquecer e lembrar.
Na temporalidade presente, assistimos ao fenómeno da abundância de fotografias e imagens, que dificulta a necessidade e vontade de selecionar e distorcer memórias no sentido de preservar a própria sanidade.
Estas Polaroids foram feitas entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025, quase posso dizer que olham para trás e para a frente, tal como Janus, seleciona a memória que fica e a que é esquecida.
Cláudio Ferreira
Janeiro, 2025
[1] Borges, Jorge Luís; Ficções, “Funes ou a Memória”, Editorial Teorema, 1998. p.97.